Fernando Pessoa identidade perdida

 

 

” Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, 

curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido 

com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem 

interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e 

era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava – 

parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que 

nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito. 

Jantava sempre pouco, e acabava fumando tabaco de onça. Reparava 

extraordinariamente para as pessoas que estavam, não suspeitosamente, 

mas com um interesse especial; mas não as observava como que 

perscrutando-as, mas como que interessando-se por elas sem querer 

fixar-lhes as feições ou detalhar-lhes as manifestações de feitio. Foi 

esse traço curioso que primeiro me deu interesse por ele. 

Passei a vê-lo melhor. Verifiquei que um certo ar de inteligência 

animava de certo modo incerto as suas feições. Mas o àbatimento, a 

estagnação da angústia fria, cobria tão regularmente o seu aspecto que 

era difícil descortinar outro traço além desse.”

Livro do Desassossego

Tela 0.60×0.60m

acrílico e pastel de óleo

Valor: €200.00